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Por
Carlos Cavallo
Ao começar a
partida, ambos os lados possuem forças iguais em quantidade e
qualidade. No entanto, em no transcurso do jogo, este equilíbrio
inicial se quebra e são criada assimetrias e desníveis,
tanto materiais como posicionais, que remetem a valorações
diversas sobre o estado de cada bando.
Em princípio, quem
joga xadrez deve tratar de criar debilidades no campo contrário
e evitá-las no próprio, com o objetivo de usufruir, com um
jogo tenaz e paciente em certos casos, ou bem com um ataque
sem dilações em outros, as vantagens que se obtêm de sua
exploração.
As debilidades podem
ser de dois tipos:
1) Transitórias, que derivam da disposição desfavorável de
uma ou mais peças e/ou
2) Permanentes, que a ver exclusivamente com defeitos na
configuração de peões.
O grau de
temporalidade remete em cada caso a sua natureza e característica
e determina o caminho que se deve seguir. É importante
destacar que muitas vezes um jogador consegue desprender-se de
uma debilidade inicial, mas a custa de criar outras novas e
mais graves em sua posição. A transferência das debilidades
implica em uma transformação das ameaças e assinala o norte
na condução das ações.
A teoria da
simplificação
Foi o genial mestre
cubano José Raúl Capablanca,1888-1942, quiçá o máximo
expoente na arte da simplificação uma vez localizada uma
debilidade no campo contrário, o autor de uma regra geral
que, por sua simplicidade e clareza, se converteu num guia
permanente para os enxadristas. A mesma aconselha a trocar
sempre as peças acessórias ao verdadeiro desnível da
partida e manter em jogo só aqueles elementos que apresentam
um desequilíbrio estratégico entre si.
Esta idéia tem o mérito
de ser altamente fecunda no momento de pensar no planejamento
do jogo, pois no dizer de Capablanca "as partidas dos
mestres de primeira linha se baseiam, não em movimentos
isolados, mas em planos de ataque e defesa premeditados",
e acrescentamos, ao menos como aspiração, que tal declaração
não só deveria valer para os mestres de primeira linha, mas
para todos, na medida em que possamos transladar junto ao
ensino do jogo a construção de uma "verdade lógica"
fundada em princípios, cujas notas de dedução e intuição
dêem rédea solta ao vôo da imaginação e assegurem ao
xadrez, como diz Roberto Grau em seu Tratado Geral, perpétua
juventude.
Duas partidas
Vamos tratar de
ilustrar com dois exemplos esta questão relativa ao modo de
criar e tratar uma debilidade, de maneira que estes conceitos
adquiram visibilidade e relevo através da partida viva e se
possa facilitar seu entendimento.
Uma das partidas foi
tomada da prática magistral, a outra me pertence e provem da
prática local entre jogadores de primeira categoria de clube.
Há uma atraente curiosidade: o lance nº 9 das negras, que é
P4AD em ambas partidas, constitui um momento crucial do jogo.
No primeiro caso é um aparente erro, uma cilada que vai
definir o curso ulterior da partida. No segundo constitui
certamente um erro que compromete o jogo das negras. Ambas
partidas deixam ver, como o entrelaçado de muitas das decisões
que se tomam em decorrência de um jogo, dependem do grau e
modo de focalizar uma debilidade no campo contrário e das
conseqüências que se derivam de seu tratamento.
Manobras para manter
as peças adversárias fora de jogo.
Quando um jogador consegue impossibilitar que uma peça, (em
general bispo ou cavalo) participe do jogo, confinando-a a um
papel passivo e intransponível, para todos os efeitos, tem
praticamente uma peça de vantagem.
OBS. Para ver as
partidas no visor, clique
aqui.
Partida
1
Brancas:
Winter, William
Pretas: Capablanca, Jose
Hastings,
1919
ECO "C49"
Comentários: Carlos Cavallo
Os comentários entre aspas pertencem a Capablanca e foram
tomados de seu livro: Fundamentos do Xadrez.
1.e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.Cc3 Cf6
4.Bb5 Bb4 5.O-O O-O 6.Bxc6
" a variante Nimzowitch, que joguei com sucesso em muitas
ocasiões, proporciona às brancas uma posição muito sólida.
A idéia é que, em seu devido tempo, as brancas poderiam avançar
f4, abrindo a coluna para suas torres, as quais, em combinação
com um cavalo colocado na casa f5, deveria ser suficiente para
ganhar".
6...dxc6 7.d3 Bd6 8.Bg5 h6 9.Bh4
c5
"para impedir d4, e convidando as brancas a jogar Cd5,
que seria fatal. O plano das negras consiste em jogar g5 tão
logo o permitam as circunstâncias, para liberar sua dama e
seu cavalo da cravada do bispo".
10.Cd5
"as brancas caíram na armadilha."
10...g5
" depois desta jogada, a partida das brancas está
perdida. Não podem jogar Cxg5 porque Cxd5 ganharia uma peça.
Devem pois contestar Bg3, antes ou depois de Cxf6, com
resultado desastroso em cada caso, como se verá."
11.Cxf6+ Dxf6 12.Bg3 Bg4 13.h3
Bxf3 14.Dxf3 Dxf3 15.gxf3 f6

"Um simples exame da posição nos ensina que
praticamente as brancas têm um bispo a menos. Somente podem
libera-lo sacrificando um peão e, talvez nem mesmo assim. As
negras concentram agora toda sua energia no flanco dama. Damos
o resto da partida para que o estudante comprove a facilidade
com que se ganha este tipo de partida."
16.Rg2 a5 17.a4 Rf7 18.Th1 Re6
19.h4 Tfb8 20.hxg5 hxg5 21.b3
c6 22.Ta2 b5 23.Tha1
Capablanca não comenta esta jogada, mas não se entende o
porque do movimento de Winter. Valia considerar 23, axb5,cxb5
e 24. Th1-ta1.
23...c4 24.axb5
" se as brancas aceitam o peão que se lhes oferece, as
negras o recuperam imediatamente: Tb4 seguido de Txc4. "
24...cxb3 25.cxb3 Txb5 26.Ta4 Txb3
27.d4 Tb5 28.Tc4 Tb4 29.Txc6
Txd4
As brancas abandonaram.
Partida
2
Brancas:
Cavallo, Carlos
Pretas: Miroslav, Zeman
Buenos
Aires, 2005
ECO "C49"
Comentários: Carlos Cavallo
1.e4 e5
2.Cf3 Cc6 3.Bc4 Bc5 4.c3 Bb6
5.d4 De7
A defesa fechada, que tem antecedentes desde fins do século
XV, foi utilizada com freqüência por Alekhine e tem o mérito
de evitar complexas variantes teóricas.
6.O-O d6 7.Te1 Bg4 8.d5 Cd8
9.a4 c5?
Erro que permite o que segue.
10.Bb5+
Agora as negras estão com problemas. Ou trocam seu bispo bom
com perda de tempo, debilitando as casas brancas, ou movem o
rei e renunciam ao roque.
10...Bd7 11.Bxd7+ Dxd7 12.a5
começa o cerco sobre o bispo.
12...Bc7 13.c4 Ce7 14.Cc3 O-O
15.Ch4 f5 16.exf5 Cxf5 17.Dg4
Df7
facilita a ação que segue e o posterior encerramento do
bispo negro e, por conseqüência, da torre de a8.
18.Cxf5 Dxf5 19.Dxf5 Txf5 20.Cb5
Bb8
se 20...Tf7 21.a6 b6 22.f4 e a posição negra não se
sustenta.
21.a6 b6

e a condenação por
fora de jogo cai sobre ambas peças negras. O branco possui,
para efeitos práticos, duas peças a mais e teoricamente
pode-se dizer que a partida está ganha. O passo seguinte é
simplificar a posição, mediante a troca do resto das peças
ativas do negro e depois penetrar em sua retaguarda para
quebrar toda resistência.
22.Ta3 Cf7 23.Tg3 g6 24.Tee3
Tf4 25.b3 Tf5 26.Tef3 Txf3 27.Txf3
Rg7 28.Rf1 h6 29.h4 Ch8 30.Bxh6+!
E as negras abandonam.
Se 30...Rxh6 31.Tf8 Rg7 32.Tc8 a ameaça de Cc7 define.
Corolário.
Fica
como corolário de ambas partidas ver como se pode ter peça a
mais, sem que necessariamente o adversário tenha peça a
menos. Na ambigüidade dos contrários a quantidade perde em
qualidade.
Fonte: Educ.ar
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