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Posições
aparentes
Saudações,
amigos leitores desta página. A lição de hoje trata de um tema muito
interessante. Isto se apresenta em muitas partidas e, quando acontece conosco,
nos lamentamos e inventamos uma série de desculpas e lamentos quando perdemos a
partida.
LIÇÃO
7: POSIÇÕES APARENTES
Lição
no visor.>>>
Vamos
explicar um caso que para os jogadores novos resulta difícil compreender; Quer
dizer, difícil de explicar porém fácil de fazer. Esclareçamos: um jogador,
em certo momento da partida ACREDITA QUE CHEGOU A UMA POSIÇÃO BOA (e pode
ser boa), O JOGADOR SABE QUE É BOA E NO ENTANTO NÃO JOGA COM A PRECISÃO
REQUERIDA E PERDE. Parecia-lhe que "já estava ganha" e se jogasse
"qualquer coisa" ganhava. Porém faz uma "capivarada" e
perde. Depois ouviremos suas lamentações: "Eu estava melhor, fiz uma
capivarada e perdi".
Outros,
mais impacientes, quando acreditam que estão melhor, lançam-se sobre as
posições inimigas e perdem. Destes ouviremos: "eu estava muito melhor,
fiz um ataque furioso, vi tudo claramente, mas me equivoquei e perdi". Isto
se chama não ter tranqüilidade e se deve à inexperiência. QUANDO SE ESTÁ
MELHOR, NÃO SE DEVE ACREDITAR QUE COM "QUALQUER COISA" SE GANHA;
deve-se tratar de conseguir o máximo da posição, sabendo que, assim como se
obteve a posição melhor, deve seguir pensando para arrematar a partida. Contra
essas "capivaradas" não se pode dar regras fixas, porém se pode dar
alguns conselhos e estes surgirão da partida que hoje vamos analisar.
Acontece
comumente que o aficionado que "está ganho" fique nervoso e faça uma
"capivarada" (má jogada). Como se deve fazer para não cair nesse
erro? Um dos conselhos seria: NÃO PENSAR QUE "ESTÁ GANHO" E
SEGUIR BUSCANDO A MELHOR JOGADA. E outro: CALCULAR NÃO SÓ SEUS PRÓPRIOS
MOVIMENTOS, MAS TAMBÉM OS DO ADVERSÁRIO.
Existem
muitas posições "aparentes" nas quais quem "ACREDITA" que
está melhor não está. Ou, se está, é tão pouca a diferença que não o
autoriza a pensar que "está ganha".
A
partida que veremos mostra uma dessas "posições aparentes" e foi
jogada no torneio de Londres entre os mestres Bogoljubov e Winter, que era
campeão inglês nesta época. O primeiro era um jogador muito mais acostumado a
grandes torneios, muito mais "cancheiro" que o campeão inglês, e
jogou toda a partida com tranqüilidade, pensando que podia superá-lo no
momento que achasse oportuno.
BRANCAS: BOGOLJUBOW
NEGRAS: WINTER
1.d4
Cf6
A mais elástica.
2.Cf3
Limita as variantes do negro.
2...e6 3.c4 Bb4+
Bogoljubow preconizava este xeque como o melhor para as negras. Agora lhe
tocará refutar seus próprios conselhos. Contra 3......Bb4+ dizia Bogoljubow
que o melhor é 4.Bd2; porém não o faz, porque calcula que joga com um rival
inferior e deseja metê-lo em variantes que talvez não conheça.
4.Cbd2
Isto se faz com a idéia de atacar, mais adiante, o bispo negro com a3,
forçando a troca pelo cavalo. Se o cavalo branco tivesse saído por c3, ao se
produzir esta situação, os peões seriam dobrados na coluna do bispo da dama e
Bogoljubow quer evitá-lo.
4...b6
O negro prepara um fianchetto de dama, que neste caso não é indicado porque o
peão do rei branco ainda não foi movido e, então, as brancas podem opor um
fianchetto de rei, que como já sabemos é superior. Porém Bogoljubow não quer
jogar "o normal" e faz:
5.a3 Bxd2+
Evidentemente, se 5...Ba5 6.b4 perdendo peça e 5...Be7 perde um tempo. O melhor
era trocar, tal como havia previsto Bogoljubow. Com o que se deve tomar este
bispo? Descartemos o rei, por razões óbvias. Se o capturamos com o bispo
branco 6.Bxd2 Ce4 e teria que trocá-lo pelo cavalo; se 6.Dxd2 Ce4 e perdemos um
tempo.
6.Cxd2 Bb7
Evita e4.
7.Dc2
Para fazer e4.
7...d6
Se 7...d5, o caminho do bispo ficaria fechado.
8.b4
Para fazer o fianchetto.
8...0-0 9.Bb2
Natural.
9...c5
Teria sido conveniente primeiro prepará-lo com 9...Cbd7.
10.e3 Cbd7 dxc5
O branco toma o peão do bispo com o peão da dama para abrir a diagonal de seu
bispo e para colocar o negro num dilema. Nisto demonstra sua tranqüilidade.
SEMPRE QUE SE POSSA COLOCAR O ADVERSÁRIO EM UM DILEMA NÃO SE DEVE PERDER A
OPORTUNIDADE. Há que jogar também psicologicamente. Porque se em certo
momento há várias jogadas ruins e uma só boa, devemos "obrigar" o
adversário a encontrá-la. E se não a encontra... Ao negro se lhe coloca este
problema: com o que deve retomar? Descartemos o cavalo. Restam d6 e b6. Sabemos,
como regra geral, que se deve tomar com o peão mais distanciado do centro.
Porém NO XADREZ NÃO HÁ REGRA FIXA; NÃO SE PODE REDUZIR O XADREZ A
PÍLULAS, PORQUE ENTÃO SERIA QUESTÃO DE SE TOMAR A DOSE INDICADA E O JOGADOR
GANHARIA TODAS SUAS PARTIDAS. Toda regra tem exceções e este caso é a
exceção. HÁ QUE JOGAR SEMPRE PENSANDO E NÃO SUPERESTIMAR NOSSOS
CONHECIMENTOS DE TAL OU QUAL REGRA.
11...dxc5
Com esta jogada, restam no flanco da dama 3 peões contra 3. Se 11...bxc5, o
peão da casa a7 fica isolado e, com 12.b5, o branco teria 3 peões contra 2 no
flanco dama, o que lhe daria uma superioridade que logo poderia aproveitar. Por
isso, sempre há que analisar. E agora é ao branco que se lhe coloca um
problema: sua vantagem está em que conserva o par de bispos, porém, em troca,
seu rival já tem todas as peças desenvolvidas, enquanto ao branco falta
desenvolver o bispo rei e rocar. Pode sair este bispo? Analisando-se um pouco,
pode-se ver que sim.
12.Bd3 Dc7
Ameaça o futuro roque. Se 12...Bxg2 seguiria 13.Tg1 Bb7 14.Bxh7+ e se 14...Cxh7
15.Txg7+ Rh8 16.Dxh7#.
13.0-0 Ce5
A ninguém se lhe ocorreria trocar o bispo pelo cavalo, porque o par de bispos
apontando para o roque adversário é muito forte; não seria negócio trocar um
forte bispo por um cavalo. Observemos outra coisa: o roque do negro é um pouco
superior ao do branco, porque tem seu cavalo em f6 e as brancas não.
14.Ce4
Não convém 14.Cf3 devido a 14...Cxf3+.
14...Cfg4?
Não
seria bom 14...Cxd3 porque segue 15.Cxf6+ gxf6 16.Dxd3 e as negras ficam com
peões dobrados na coluna do bispo rei, enquanto as brancas teriam dama e bispo
apontando para o roque, com grandes possibilidades de "montar a
máquina". Estudemos o que viu Winter. Conforme a resposta das brancas,
seguiria : 15.....Cxh2; 16.Rxh2 Cf3+ 17.Rh1 y Dh2++. Se o rei escapa por h3, vem
também 17.Dh2+ e o mate se produz poucas jogadas depois. Havia também outra
combinação parecida: 15......Cf3+ gxf3 e Dxh2++. Porém Bogoljubow, jogador
"cancheiro" e experimentado, viu tudo isto, demasiado simples para um
mestre de sua talha e jogou tranqüilo:
15.Cg3
Lógica. Corta a ação da dama em h2 e destrói a combinação,
15...f5
Esta jogada é produto da má apreciação. O negro segue calculando suas
próprias jogadas, porém não as do adversário. Correto teria sido Cxd3,
porém as negras não querem perder seu ataque. Bogoljubow segue tranqüilo. QUANDO
FALTA O CAVALO DE f3 EXISTE UMA MANEIRA DE SUBSTITUÍ-LO DE MANEIRA EFICAZ. (que
Lasker praticou muito), E QUE CONSISTE EM COLOCAR OUTRO CAVALO EM f1, onde
estará melhor do que em f3 e defenderá a casa h2. Por isso joga sem
afobamento.
16.Tfe1 h5 17.Be2
Não se pode jogar 17.Cxh5 devido a 17...Cxd3 18.Dxd3 Dxh2 etc.
17...h4
O branco joga tranqüilo, como se dissesse: "Deixe que venha",
enquanto o negro continua obcecado em ganhar por mate. Fez h4 pensando:
"Vou lhe destroçar!", porém sem se dar conta de que o cavalo em f1
estará melhor.
18.Cf1 h3
Forçando tudo.
19.gxh3 Dc6
A máquina! Esta era a jogada "chave" que se reservavam as negras;
entregariam o cavalo, mas armariam "a máquina", com a qual dariam
mate em g2 e h1. Porém as brancas o haviam previsto.
20.e4
A única possível.
20...fxe4
Este é o momento justo em que se rompeu a máquina e se terminou o ataque.
Winter havia calculado: 21. f3 a o que seguiria Cxf3, etc. Porém Bogoljubow
respondeu:
21.b5!
A jogada intermediária.
21...Dd7
Que remédio?
22.Bxg4 Cxg4 23.hxg4
As negras tem uma peça a menos; estão perdidas. Entretanto, "tiram um
lance da cartola".
23...Tf3 24.Te3
Para trocar.
24...Taf8 25.Txf3 exf3
Terminou o ataque.
26.Td1 De7
Ameaçando "entrar" por h4.
27.Dg6
E
as negras abandonam. As negras não tem jogada satisfatória e optam por
abandonar, antes de seguir uma luta desigual.
Onde
está o erro do negro? Pode-se dizer que "se equivocou" em algum
movimento? Não. E, no entanto, perdeu. Agora virão os lamentos "não sei
como perdi, se eu estava melhor!", dirá depois. Porém, está certo isso?
Dissemos que não.
A
posição era aparente e o erro partiu de calcular seus próprios movimentos,
porém não os do adversário. Não estava melhor. Acontecem muitas posições
como esta, aparentes. E QUANDO UM JOGADOR ACREDITA QUE A PARTIDA ESTÁ GANHA,
NÃO É QUESTÃO DE SE LANÇAR A UM ATAQUE DESORDENADO, NEM DE JOGAR
"QUALQUER COISA"; HÁ QUE SEGUIR PENSANDO. ESTES SÃO MEUS CONSELHOS.
NO XADREZ, É MAIS DIFÍCIL ATACAR DO QUE SE DEFENDER, porque há que
encontrar sempre a jogada justa; enquanto que, para se defender, existem muitas
que podem servir. Entretanto, os aficionados preferem atacar à se defender; é
mais bonito, o jogador está de melhor semblante, é mais alegre. E ao
contrário do que ocorre em outros esportes: NO XADREZ, O MELHOR ATAQUE É UMA
BOA DEFESA.
Bom,
amigos leitores, finalizamos esta sétima lição, muito simples, porém de
muita importância para nos conscientizar de que quando estamos melhor não
significa que tenhamos a vitória garantida. Pense sempre antes de jogar. Até
breve.
Profesor.
Erich González
E
- mail: edgonzal@luz.ve
TRANSCRIÇÃO
Pelo Profesor ERICH GONZALEZ, na Cidade de Maracaibo, Estado Zulia, Venezuela,
das LIÇÕES DO Dr RAFAEL BENSADÓN, EM APONTAMENTOS TOMADOS PELO ALUNO ERNESTO
CARRANZA.
(Tradução:
Elias Muniz)
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