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Lição
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Saudações,
amigos leitores desta página. Hoje trataremos de um tema que não é novo para
nós. Trata-se do peão dobrado. Recordemos sempre que A ESTRATÉGIA DOS
PEÕES É A MAIS IMPORTANTE DO XADREZ E O ESQUELETO DA PARTIDA.
LIÇÃO
10 - PEÃO CENTRAL DOBRADO
Já
nos referimos em outras lições a existência de peões dobrados nas colunas
bispo dama e bispo rei. Falaremos, hoje, do peão central dobrado. Pode ser,
indistintamente, o peão rei ou o peão dama.
Desde
já, diremos que se trata de uma situação delicada para os dois jogadores.
Estas situações podem ocorrer de várias maneiras. Por exemplo: pode-se dobrar
um peão na coluna do rei e ser o peão do bispo rei ou o peão dama que passou
para dita coluna. Do mesmo modo, o peão dobrado na coluna da dama pode ser o
peão rei ou o peão bispo dama.
Que
vantagens e desvantagens há em se dobrar estes peões? Vale a pena fazê-lo ou
não? É o que veremos nesta lição. As desvantagens do peão central dobrado
são: Além da debilidade de todo peão dobrado, entorpecem o jogo de seus
próprios bispos, no principio do jogo ou mais adiante. Suas vantagens são:
podem facilitar o jogo das torres nas colunas adjacentes e vigiar as quatro
casas centrais. É claro que as desvantagens costumam ser maiores que suas
vantagens e é raro não ficarem completamente fracos por falta de sustentação
lateral. Neste caso, serão facilmente atacáveis pelas torres contrárias e,
cedo ou tarde, devem cair. Isso não é tão grave quando o contrário tem um
peão na mesma coluna, o que corta o jogo das torres. OS PEÕES CENTRAIS
DOBRADOS SÃO UM PESO MORTO PARA QUEM OS LEVA. Pode-se ganhar, porém é uma
grave desvantagem.
Fazendo
um resumo, diremos: O peão bispo dama dobrado é uma desvantagem relativa. O
peão bispo rei dobrado é uma desvantagem grande. E o peão central dobrado tem
seus prós e seus contras, porém os contras geralmente são maiores. Se for
possível evitar, melhor.
A
partida de hoje pertence ao torneio de Nova York e foi jogada pelos mestres
Lasker e Marshal. Sabemos que o desaparecido mestre Lasker foi campeão mundial
durante largos anos, e que não jogava só com as peças, mas o fazia
psicologicamente. Esta tática muitas vezes lhe deu excelentes resultados. Foi
jogada uma abertura Ruy López, uma das mais antigas e sólidas, a mais
analisada de todas, e que ainda hoje é praticada por muitos mestres porque dá
muita iniciativa às brancas.
BRANCAS:
E. LASKER
NEGRAS:
MARSHAL
Abertura
Ruy López
Torneio
de Nova York.
1.e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.Bb5 a6
(Defesa Morphy) A defesa atribuída a Morphy "não agradava" a Lasker,
que preferia jogar suas partidas deixando cravado o cavalo dama negro. Nesta
posição, quase todos os jogadores retiram o bispo para a4, a fim de levá-lo
(depois de várias jogadas) a c2 porque na Ruy López este é o bispo mais ativo
das brancas. Por tal causa, não é aconselhável trocá-lo jogando 4.
BxCc6.(Variante da troca). Entretanto, Lasker o fez. Sabemos que o peão dobrado
na coluna bispo dama não representa maior desvantagem e, portanto, não
compensa a troca do bispo pelo cavalo.
4.Bxc6 dxc6?
Era melhor tomar o bispo com o peão de b7. Pareceria que, nessa situação,
perde-se o peão rei, porém não é assim. Existe uma infinidade de variantes
na Ruy López onde se demonstra que se recupera esse peão. Não o faremos aqui
por ser demasiado longo. Porém, nessa época, costumava-se tomar o bispo com o
peão de d7 e a razão era que se poderia responder com Dd4 a um eventual 5.
Cxe5. Se tomar com o peão dama fosse forçado, valeria a pena. Caso contrário,
não é conveniente. O principal é que ficam 4 peões brancos contra 3 negros
no flanco dama, porque o peão dobrado é contado como um só. E o procedimento
para ganhar é trocar imediatamente o peão dama branco pelo peão rei negro,
com o que se deixa o flanco dama equilibrado (3 contra "3"), enquanto
que no flanco rei o branco tem um peão a mais, com o que pode-se ganhar. Talvez
mais adiante falaremos deste tema. Lasker, que conhecia muito bem esta teoria,
coloca-a em prática sem demora, como veremos
5.d4! Bg4
(a lógica); (Não convém ao negro jogar: 5...exd4 devido a 6.Dxd4 Dxd4 7.Cxd4
ficando o branco com um peão a mais no flanco rei; ou seja, o que dissemos
acima. É um final que se pode ganhar matematicamente; Reti o demonstrou em
muitas partidas. Portanto, Marshal "não entrou" e fez a jogada
lógica 5... Bg4 cravando o cavalo.)
6.dxe5! Dxd1+ 7.Rxd1 O-O-O+
O negro rocou. Ganhou um tempo porque o fez dando xeque e impediu o roque das
brancas. Além disso, em troca do peão dobrado na coluna do bispo dama, ficou
com o par de bispos e poderia agora dobrar um peão na coluna bispo rei, fazendo
Bxf3. Porém, Marshal parece decidido a conservar seus bispos e não o fará.
Neste momento, as negras estão melhor, ainda que tenham 2 peões a menos.
Observemos que já se produziu o dobramento de peões centrais na coluna do rei.
Esses peões vigiam quatro casas centrais muito importantes e, por enquanto,
não se vê nenhuma debilidade. Entretanto, a partir deste momento, a partida
gira ao redor dos peões centrais dobrados. Marshal perdeu esta partida porque
seu adversário "era Lasker" e porque tinha um peão "a
menos" no flanco dama. Mas as incidências da mesma nos ensinaram como se
deve proceder contra os peões centrais dobrados, até conseguir sua queda.
Nesta posição, a maioria joga 8.Re2, mas Lasker, que como dissemos, jogava
psicologicamente, fez Re1, que dá a impressão de ser ruim mas não é.
8.Re1 Bc5
(Se 8...Bxf3 dobra-se mais um peão na coluna bispo rei. Mas já dissemos que
Marshal quer conservar seus bispos e Lasker, que já adivinhou, depois de uma
análise psicológica, advertiu que se antes não o fez agora tampouco o fará.)
9.h3 Bh5 10.Bf4
As brancas sustentam de todas as formas o peão central a mais.
10...f5 11.Cbd2
(As negras entregam um novo peão. Convém tomá-lo? Vejamos: se 11.exf5 Bxf3
12.gxf3 e ficam três peões brancos dobrados na coluna bispo rei. O negro os
atacará e facilmente os irá tomando.) (Também se pode tomar este peão en
pasant, com o que aparentemente se desdobra. 11.exf6 Cxf6 12.Cbd2 The8 Todas as
peças do negro estão sobre o rei branco, que perdeu o roque, e sua posição
é muito ruim. O peão a mais está dando trabalho e Lasker pensou: para que
ganhar outro peão? E jogou tranqüilamente, tratando de sustentar tudo.)
11...Ce7
Mais adiante, as negras levarão uma torre a e8 para "trabalhar" os
peões dobrados.
12.Bg5
(Crava o cavalo.) (O branco também pode jogar 12.exf5 porém, por que não o
faz? Pelas mesmas razões que antes. Dissemos que a vantagem dos peões dobrados
está em vigiar 4 casas centrais importantes. Esses peões, por agora, paralisam
o cavalo negro; não lhe permitem saltar a d5 nem a f5. Tampouco poderia ir a
g6. A lasker, com essa sagacidade de velho zorro que tinha, se lhe ocorre: já
que a vantagem desses peões está em tomar suas casas laterais, se os pudesse
conservar e seguir com o peão a mais, é evidente que o final me seria
favorável. E é por isso que não faz 12.exf5, já que permitiria Cxf5 ou Cd5,
"entrando" o cavalo e destruindo essa situação dos peões centrais.)
12...Bxf3
(Decidiu-se.) Há que tomar esse bispo com o peão de g2.
13.gxf3
(se 13.Cxf3 segue 13...fxe4 etc., e o negro recupera o peão, ficando as brancas
com um peão rei muito fraco.)
13...The8 14.Td1
(Defendendo-se.)
14...fxe4 15.fxe4
Poderia jogar CxP, desdobrando-se no centro, porém sua situação não
melhoraria porque, em seguida, seriam trocadas as torres e o cavalo negro
"entra". Além disso, continuariam dobrados os peões da coluna bispo
rei. Com 15. fxe4, os peões continuam sendo fracos, porém a posição o exige.
15...h6 16.Bh4 Bd4
Este bispo ameaça dois peões ao mesmo tempo: o peão de e5 e o de b2. A única
possível para salvar tudo é 17. Cc4 ao que seguiria b5, desalojando o cavalo;
porém, Lasker viu que há outra jogada intermediária:
17.Cc4 g5
(Ameaça o bispo.)
18.c3
É esta a jogada intermediária de que falávamos. Se 17.....b5, Lasker salvava
tudo com ela. As negras aproveitam agora para fazer trabalhar seu cavalo.
18...Cg6 19.cxd4 Cxh4
Ao
tomar o bispo, as brancas aproveitaram para formar o quadrado de 4 casas, que
dará força aos peões centrais dobrados. Por agora, estabiliza o centro de
peões. Porém, apesar de ter um peão a mais, é o branco quem tem que se
defender. As negras ameaçam Cf3+, ganhando o peão de d4. É CONVENIENTE
ESCAPAR COM O REI ANTES QUE LHE DÊEM O XEQUE:
20.Re2 Td7
O negro busca contra-chances: poderá dobrar as torres na coluna da dama, ou
correr ao flanco rei, segundo convenha. A posição é favorável às negras.
21.f3
(Sustenta.)
21...Cg6
Este cavalo quer ir ao melhor lugar onde poderia estar: a casa f4, e o branco
não pode evitar. Porém, por sua vez, as brancas podem levar seu cavalo à casa
f5:
22.Ce3 c5!
As negras oferecem outro peão, que é seu peão dobrado, de maneira que pouco
vale. Porém não convém tomá-lo porque 23.dxc5 Txe5 que se jogará agora ou
mais adiante, tomando um peão central.
23.dxc5
(Não serve 23.d5 devido a 23...Txe5) (Tampouco é bom 23.Cc2 por 23...cxd4 E,
mais adiante, Txe5 ou Cxe5) (Tampouco serve 23.Cd5 por 23...Cf4+ forçando a
troca de cavalos, ficando o branco inferior.)
Vemos, pois, que esta posição conglomerada de peões é fraca e lasker o
admite. O dilema é simplesmente deixá-los entregues a sua própria sorte!
Lasker pensou: ainda que se percam os dois peões centrais, recém estaremos
iguais de material!! Por isso não temeu e jogou 23.dxc5. Mas se isso tivesse
ocorrido em uma partida vulgar, onde os dois lados estivessem iguais, o negro
ficaria com dois peões a mais. E isso é o que queremos demonstrar: QUE AS
DESVANTAGENS DO PEÃO CENTRAL DOBRADO SÃO MAIORES QUE SUAS VANTAGENS.
23...Cf4+
(Pressiona um pouco mais.)
24.Rf2 Txd1 25.Txd1 Txe5
E CAIU O PEÃO CENTRAL DOBRADO, QUE ERA O QUE INTERESSAVA MOSTRAR. Claro que,
nesta partida, isso tem pouca importância devido a diferença de material
existente. Porém, como dissemos, se isso ocorresse em uma partida equilibrada,
seria decisivo. É esta a parte a que queríamos chegar nesta lição. Não
obstante, vamos continuar desenvolvendo a partida, que vale a pena. Agora, à
custa dos dois peões que perde, o branco pensa em ficar com um peão rei
passado e com mais mobilidade. O peão branco de h3 ficou sem defesa. Pouco
importa a Lasker, porque, à sua custa, conseguirá imobilizar o cavalo negro.
Por enquanto, trata de cortar o caminho entre a torre negra e seu peão em c5.
26.Cd5 Cxh3+
(Se 26...c6 27.Cb6+ e logo apoiará seu peão de c5.)
27.Rg3
(Ganha tempo.),
27...g4!
(Se as negras tivessem jogado 27...Cf4 28.Cxf4 gxf4+ 29.Rxf4 Txc5 E o peão
passado de e4 começa a avançar e decide a partida.)
28.Cf6
(Se 28.Rxg4 Cf2+ com duplo no rei e na torre.) (E se 28.fxg4 Cg5 e cai o peão
central com xeque.)
Vemos que o negro já conseguiu igualar em material, porém agora as vantagens
estão do lado do branco, porque aproveitou os tempos que o outro perdeu em
tomar os peões para colocar melhor seu cavalo, sua torre em uma coluna aberta e
seu rei de forma mais ativa que o rei contrário.
28...h5
29.f4
Quando as brancas jogaram 28.Cf6, a idéia não era tomar o peão de g4, como
aparentava, mas apoiar seu peão de e4, para logo avançar com f4 e, desta
maneira, ter dois peões passados que começaram a "caminhar" para
chegar à oitava casa. Assim o fez. À torre negra não resta mais remédio que
tomar o peão em c5, já que qualquer outro movimento seria inócuo. Assim, as
negras obtém um peão a mais, que está amplamente compensado com os peões
brancos passados.
29...Txc5
(Uma combinação falsa seria 29...h4+ porque 30.Rxg4 e mesmo que siga 30...Cf2+
31.Rxh4 Cxd1 e 32.fxe5 e esses peões centrais são imparáveis.)
À essa altura da partida, já não importa ter peões centrais dobrados. O que
dissemos nesta lição vale para a abertura e o meio jogo, enquanto haja muitas
peças no tabuleiro.
30.Te1
Na maioria das vezes, QUANDO SE QUER LEVAR UM PEÃO À DAMA, O MELHOR É
"EMPURRÁ-LO" COM UMA TORRE POR TRÁS. Por isso, Lasker jogou 30.Te1,
apesar de que sua torre em d1 estava muito bem, já que paralisava o rei
contrário. Mas tinha visto a continuação.
30...Tb5 31.e5
(Podiam fazer 31.Cxh5 Mas não há problema. O peão negro de h5 "espera
turno".)
31...Rd8 32.Cxh5 Re7 33.f5
Agora se vê por que se necessitava da torre atrás do peão rei. Também
poderia tomar o peão de g4, porém Lasker "era Lasker" e fazia o mais
seguro. Vemos que o cavalo negro continua imobilizado. Marshal se aborrece de
tê-lo inativo e, quando se lhe apresenta a oportunidade, tira-o dali, ainda que
não esteja bem colocado em g5 e não possa evitar a perda do peão de g4.
33...Cg5 34.Rxg4 Ch7
(Completamente inofensivo.)
35.Cf4 Txb2 36.Cd5+ Rd7 37.e6+ Rd6 38.e7
Rxd5 39.Te6
(Se agora 39.e8D Cf6+ capturando a dama e ganhando um peão.)
39...Tg2+ 40.Rf4 Tg8 41.e8D Txe8 42.Txe8
O peão rei passado custou a torre. As brancas tem qualidade de vantagem. As
negras tratam agora de avançar com seus peões. Porém aqui é onde se vê a
tranqüilidade do mestre Lasker, que "aperta" o contrário até tirar
o máximo jogo da posição.
42...c5 43.Td8+
e as negras abandonam.
Se
43...Rc6 44.Th8
E se
44...Cf6
45.Th6 ganhando
o cavalo, porque está cravado.
CONCLUSÕES:
Como vêem, Lasker
ganhou esta partida porque "era Lasker" e pela vantagem obtida nos
primeiros movimentos da abertura, em que obteve vantagens materiais. O que
interessa para esta lição é a primeira parte do jogo (depois que se dobraram
os peões centrais), onde, se houvesse igualdade de peças, não teria sido
possível às brancas sacrificar dois peões. O negro levou a iniciativa durante
quase todo o jogo, devido à má situação dos peões centrais dobrados. Donde
resulta que AS DESVANTAGENS DOS PEÕES CENTRAIS DOBRADOS SÃO MAIORES QUE
SUAS VANTAGENS. Bem, prezados amigos leitores, é tudo por enquanto.
Obrigado por suas felicitações, o que me motiva a seguir com esta meta de
ajudar-lhes a elevar seu nível de jogo. Até a próxima lição.
TRANSCRIÇÃO
feita pelo Professor ERICH GONZALEZ, da Cidade de Maracaibo, estado Zulia.
Venezuela LIÇÕES DO Dr. RAFAEL BESANDON, BASEADOS EM APONTAMENTOS TOMADOS PELO
ALUNO ERNESTO CARRANZA.
Prof.:
Erich Gonzalez e - mail: edgonzal@luz.ve
Tradução:
Elias Muniz
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