|
Amigos
leitores desta página. Novamente com vocês, com outra lição. Muitíssimo
obrigado por seus comentários sobre as mesmas. Sudações e um abraço desde
minha pátria Bolivariana, minha querida VENEZUELA.
LIÇÃO
15 DEBILIDADE DA DIAGONAL a2 - g8
Hoje
vamos ver como se explora a debilidade da diagonal a2 - g8 (para explorar dos
dois lados), quando, por um defeito da abertura, se avança o peão do bispo rei
( f6). Na realidade, AVANÇAR O PEÃO DE f6 DEPOIS DE HAVER FEITO O ROQUE
CURTO QUASE SEMPRE É MAU, porque dá origem à debilidade da diagonal antes
mencionada. E a partida, por isso só, está perdida quando o adversário ainda
conserva seu bispo rei, que há de dominar essa diagonal, por exemplo, desde a
casa c4.
De
maneira que saber se é bom ou mau fazer f5, veremos em seguida: se o adversário
tem o bispo que corre pelas diagonais da mesma cor que a2 - g8 e pode explorar
esta debilidade (porque poderia acontecer que esse bispo estivesse encerrado e não
pudesse chegar à diagonal mencionada), é indubitável que essa jogada é ruim.
A jogada f4 ou f5 deve ser muito bem pensada.
Porém,
ainda há mais: suponhamos que já tenha desaparecido o bispo rei do adversário;
Ainda assim, resta a Dama, que pode substitui-lo! E quando a Dama pode
substituir esse bispo deve-se considerar com muita cautela para não sofrer as
conseqüências. Muitas partidas foram perdidas e muitas se perderão unicamente
por esse detalhe. Quando se faz, por exemplo, f4 a idéia é fazer jogar a torre
de f1 ou, às vezes, cortar a ação do bispo rei contrário contra a casa a2.
Porém, então essa diagonal já não interessa, pois o bispo rei passa à outra
diagonal (a2 - g8). Daí que, quando em qualquer partida estejamos por jogar f5
(depois do roque curto), devemos levar muito em conta os detalhes e pensar muito
no que vem. Claro que às vezes é obrigatório fazer f5 para evitar o mate e não
resta outro remédio. O que vamos fazer!
Na
partida que reproduziremos ficará bem claro a debilidade que hoje estudaremos.
E novamente lhes digo: se até os grandes mestres esquecem desses detalhes, um
aficionado também pode cair e fazer f5 sem muito analisar.
BRANCAS: SPIELMANN
NEGRAS: THOMAS
1.d4 e6
A
resposta das negras é outra jogada elástica e significa um convite ao branco
para variar os planos. Efetivamente, quando as brancas iniciam com e4 e as
negras respondem (como agora) e6, entra na conhecida Defesa Francesa, cuja idéia
é jogar com um centro atrasado para depois atacar o peão do rei branco
mediante d5. Os lances que caracterizam esta defesa são: 1. e4, e6 2. d4, d5,
depois do que há várias estratégias.
Aqui
as brancas começaram com 1. d4 e a resposta e6 das negras significa que o
convidam a jogar 2. e4, entrando em uma Defesa Francesa por transposição de
jogadas. Spielman não aceita. Não lhe agrada, pelo que já disse nas lições
anteriores muitas vezes: É BOA TÁCTICA NÃO FAZER O GOSTO DO ADVERSÁRIO.
DO ADVERSÁRIO PODEMOS ACEITAR OS CONVITES PARA TOMAR CAFÉ, JANTAR OU IR AO
CINEMA, ETC. PORÉM, NO TABULEIRO, NÃO DEVEMOS ACEITAR CONVITES. HÁ QUE
RECUSAR.
2.c4 Cf6
Vemos
que o branco segue obstinado em seu intento: estabeleceu uma abertura peão dama
e segue com sua idéia de jogar um gambito de dama. O negro, por sua parte,
atrasa o desenvolvimento de seu peão dama. (Pode-se fazer).
3.Cc3 d5
Agora
é o branco que convida a entrar em uma defesa Nimzovitsch (3.......Bb4), porém
seu adversário não aceitará e entra em um peão dama normal. Sabemos que
nesta abertura a situação é difícil de desequilibrar para um ou outro lado,
se não houver erros.
Aqui,
trata-se de ir dominando casas importantes. Ao contrário, na abertura de peão
rei, trata-se de ir logo ao flanco rei e atacar em seguida. Na peão dama, as peças
não estão em lugares agressivos; faz-se o jogo posicional.
4.Bg5
A
brancas atrasam o desenvolvimento do cavalo rei, reservando-se o direito de tirá-lo
pela casa f3 ou por e2. O plano é bom.
4...Cbd7
Já
comentamos este lance na lição anterior. Encerra a cilada já demonstrada.
Para os teóricos, a dificuldade está em saber se deve fazer-se primeiro Be7 ou
Cbd7. A moda de hoje está por Be7. Sua razão é que com Cbd7 facilita-se o
jogo das brancas, que poderiam seguir 5. e4; coisa que Be7 não permite. Em
troca, Cbd7 tem a vantagem de que as negras ainda não desenvolveram seu bispo
rei e, portanto, se reservam o direito de fazer uma Cambridge-Springs, que como
dissemos consiste em levar este bispo a b4 e a dama a a5, pressionando sobre o
cavalo cravado em c3. Na partida, não acontece assim; as brancas jogam tranqüilamente:
5.e3 c6
Depois
disso, pareceria que o negro tem a idéia de jogar uma Cambrigde-Springs; idéia
discutível nesta posição, já que não está desenvolvido o cavalo rei
branco, que pode sair por e2 e o plano das negras fracassa. Porém o branco não
quer complicações. Uma boa maneira de parar a Cambridge-Springs é fazer:
6.cxd5 exd5
Já
expliquei que é melhor tomar com o peão de e6 (peão rei negro) do que com o
peão de c6. A razão é que facilita às negras a saída de seu bispo dama, que
logo jogará perfeitamente bem.
7.Bd3 Be7
As
negras renunciam a colocação da Cambridge-Springs, já que as brancas, com
Cge2, pararão todas as ameaças.
8.Dc2 0-0
Aqui
existe um plano, que se joga hoje em dia, para liquidar está situação. O
plano consiste em não fazer o roque, mas jogar: [ 8...Ch5 ao que poderia seguir
9.Bxe7 Dxe7 10.Bxh7 g6 (encerrando o bispo) 11.Bxg6 fxg6 12.Dxg6+ etc. E, como
vemos, o branco trocou uma peça por três peões do flanco rei.] Não há,
pois, nenhum perigo para o negro em fazer este plano porque: ENQUANTO NÃO SE
CHEGUE A UM FINAL CLARO, OS TRÊS PEÕES NÃO COMPENSAM A PEÇA PERDIDA. ESTARIA
COMPENSADA SE AINDA RESTASSEM DEBILIDADES A EXPLORAR, DO CONTRÁRIO, A PEÇA
VALE MAIS.
É
distinta a situação quando se chega a um final puro; por exemplo: um lado com
rei e bispo e o outro com rei e três peões; não há nenhuma dúvida de que os
três peões valem muito mais do que a peça porque com o bispo somente não se
pode dar mate, enquanto que os peões podem ser coroados e ganhar a partida. Por
isso, repito, o plano anterior tem certa vitalidade. Porém sigamos com a
partida.
9.Ce2 Te8
Observemos
que assim se torna forte a pressão do bispo e da dama brancos sobre a casa h7,
coisa que com o plano se elimina, para fazer depois g6. Vemos que agora as
negras não podiam tirar seu cavalo de f6, por que viria Bxh7+. Para poder fazê-lo,
primeiro devem ter movido sua torre a e8 e depois devem colocar o Cd7 em f8.
10.0-0-0
Sabemos
que QUANDO SE FAZ O ROQUE GRANDE TENDO O ADVERSÁRIO O ROQUE PEQUENO,
SIGNIFICA QUE SE VAI ENTRAR EM UM "DUELO DE MORTE". Os planos do
branco são: levar um ataque de peões no flanco rei para destruir o roque. Se não
fosse por isso, e porque a posição se presta para tais manobras, o roque
grande não seria recomendável. Aqui é possível porque o rei negro está mal
colocado e há contra-chances.
10...Ce4
Com
a idéia de evitar o que dissemos se faz 10.......Ce4; porém, isto é o início
de um plano equivocado. Logo as negras entregam um peão e trocam seu bom bispo
da defesa por outro bispo que não trabalha.
11.Bxe4
Se
11.Bxe7 Dxe7 e o cavalo negro de e4 acabará bem defendido e até ameaça um
duplo às torres, tomando o peão de f2. Isso foi o que pensou Thomas, porém
Spielman não o fará.
A
situação é um tanto complicada. Se 11.Cxe4 o indefeso bispo de g4 acaba
protegido, mas só pelo momento porque segue 11...dxe4 e se 12.Bxe4 ( se 12.Bxe7
exd3 13.Dxd3 Dxe7 com ganho de peça para o segundo jogador.) 12...Bxg5 13.Bxh7+
Rf8 e as negras trocam dois peões por um bispo. Tampouco serve 11.h4 porque se
perde a qualidade com 11...Cxf2]
11...dxe4
Ao
não poder tomar o bispo de g5, as negras devem conformar-se em matar o outro
bispo. Então, agora é o momento de dar um apoio ao indefeso bispo de g5 com
12. h4 e se Bxg5 13.hxg5,Dxg5 14. Cxe4 e as brancas conseguem abrir a coluna
h1-h8 (que é o que querem) para exercer uma forte pressão sobre o roque com a
torre e a dama apontando a h7.
12.h4 f5
Chegamos
ao momento que desejávamos para esta lição.
As
negras, prevendo que depois da troca de bispos não lhes seria fácil defender
seu peão avançado de e4, analisam superficialmente a posição e avançam o peão
a f5 para dar-lhe apoio. E já se cometeu o erro tão comum que escolhi para o
tema de esta lição.
Antes
de seguir adiante, vamos fazer outras esclarecimentos sobre esta partida. Com
12.Bf6 tampouco se defendia o peão de e4. E se jogassem 12.....h6 as brancas
poderiam estudar a possibilidade de perder o bispo de g5, para abrir a coluna da
torre, já que isso dá lugar a uma série de combinações um pouco longas de
resumir. De todo o que, se infere que o salto de 10......Ce4 era mau.
Observemos
que as brancas carecem do bispo rei, que poderia dominar a diagonal de quadros
brancos (a2-g8). Mas tem a dama que pode substitui-lo! O negro conseguiu
defender seu peão de e4, porém deixou uma enorme debilidade, que neste caso
basta para perder. O negro acredita poder solucionar estes problemas, porém não
é isso o que acontece, porque logo vem a dama a tomar essa diagonal e com
xeque, com o que ganha mais tempo para o ataque.
Daqui
para frente, o negro deverá fazer unicamente jogadas defensivas que, não
obstante, serão insuficientes para equilibrar a luta.
13.Db3+ Rh8
Ao
não poder cobrir com nenhuma peça, aonde poderia ter ido o rei? Talvez em f8
poderia ter se defendido um pouco mais, já que a pressão da torre de h1 não
seria tão decisiva. Porém estamos seguros de que 999 jogadores sobre 1000
teriam feito, por princípios gerais ou por costume Rh8, que foi o que Thomas
jogou, sem advertir que existe uma força muito grande na coluna h1-h8, e que a
ação da torre, a longo prazo, dará seus frutos. Agora, trata-se de explorar
ainda mais a má colocação do rei negro.
14.Cf4
Ameaça-se
um salto de cavalo a e6, que seria forte. Porém se agora viesse 14......Bxg5
seguiria 15.Cg6+ (com o que se dá jogo à torre) porque a: hxg6 e 16.hxg5++
(mate). Donde se demonstra, uma vez mais, que A MÁ COLOCAÇÃO DO REI
PERMITE COMBINAR E SEMPRE SE ENCONTRARÁ A MANEIRA DE CONTINUAR O ATAQUE.
Observemos
que não só o rei está colocado na mesma coluna onde, na outra ponta, está
uma torre, senão que também a dama negra está nas mesmas condições, apesar
de que existam peças entre elas, que, como sabemos, desaparecerão quando o
branco se propuser a isso. Para defender a casa e6 e reforçar h7, faz:
14...Cf6 15.h5
As
brancas estão ameaçando mate com 16.Cg6+, hxg6 e 17. hxg6++. A ação da torre
sobre o rei é decisiva, enquanto que a dama colocada na diagonal a2-g8 vigia o
movimento do rei negro. Não resta mais remédio que não seja cobrir a diagonal
dominada pela dama branca. E com o único movimento possível; com o cavalo em
d5. No momento, não haverá mate, porém a posição está perdida.
15...Cd5
Como
se defende o mate? se joga: 15...h6 que não é bom devido a 16.Df7 hxg5 17.h6
gxf4 18.hxg7# ou qualquer outra combinação parecida, que ganha rapidamente.
16.Bxe7 Cxe7
Não
seria bom 16...Dxe7 devido a 17.Cg6+ (duplo) 17...hxg6 18.hxg6+ Rg8 19.Cxd5 etc.
Além disso, as negras acreditam que com o movimento da partida impedirão, por
agora, 17. Cg6+. Mas, apesar de todo.......
17.Cg6+ Cxg6 18.hxg6 Be6
Finalmente
as negras conseguiram cortar a ação da dama na diagonal a2-g8, ainda que
demasiado tarde. Com 19.Dxb7 é suficiente para ganhar, porém não se pode dar
mate, que é ao que Spielman se propõe, em vista de sua favorável posição.
Como não há pressa em retirar a dama porque existe a pressão da torre sobre o
rei, faz:
19.Txh7+ Rg8
Única.
20.d5
É
esta a jogada lógica porque, enquanto interrompe a ação do bispo, limpará a
coluna d1-d8 para que a outra torre logo pressione sobre a dama negra.
20...cxd5 21.Cxd5
E
já se conseguiu limpar a coluna d1-d8, que parecia tão fechada. Porém agora
as negras aproveitam a debilidade do roque grande, que nesta partida não tem
maior importância, mas em outras é tema para explorar.
21...Tc8+ 22.Rb1 Dg5
A
dama se desfaz da pressão da torre, ameaçando também tomar o peão de g6.
Veremos que isto não resultará suficiente:
23.Tdh1 Dxg6 24.Th8+ Rf7
Única.
25.Dxb7+
E
as negras abandonam.
RESUMO:
Nesta partida, a dama, desde a décima terceira jogada, (depois que se jogou
12.....f5), exerceu uma forte pressão na diagonal a2-g8, que também poderia
ter exercido o bispo rei se as brancas o tivessem; o que foi suficiente para
demolir todas as defesas de seu adversário. Vimos como, unicamente por esse
detalhe, perdeu-se uma partida que, até então, era mais ou menos equilibrada.
Repito
o que disse muitas vezes: É PERIGOSO DESCUIDAR DE DETALHES NO AFÃ DE
SUSTENTAR TUDO, PORQUE SE O CONTRÁRIO SABE EXPLORÁ-LOS (como neste caso) A
PARTIDA SE TORNA INDEFENSÁVEL.
Bom,
amigos leitores, é tudo por enquanto. Façam seus próprios comentários no que
se refere a esta lição. Agradeço-lhes suas correções. Até breve.
Prof. Erich González
E-mail:
edgonzal@luz.ve
TRANSCRIÇÃO
Pelo Professor ERICH GONZALEZ, na Cidade de Maracaibo, Estado Zulia, Venezuela,
das LIÇÕES DO Dr RAFAEL BENSADÓN, EM APONTAMENTOS TOMADOS PELO ALUNO ERNESTO
CARRANZA.
(Tradução:
Anderson de Jesus)
|