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| Um grande jogador no resplendor de seus tempos. Héctor Decio Rossetto |
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Postado em Sat 09 May 2009
por muniz555
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 Frank Mayer Enxadrista de origem alemã, residente em Barcelona. Catalunha, Espanha
Héctor Decio Rossetto ( * 1922 † 2009 ) Héctor Decio Rossetto. Capa de 1942
Rossetto: o adeus a uma lenda do mundo do xadrez
Para consternação de todo o mundo do xadrez, no dia 22 de janeiro do presente ano, morreu um de seus grandes jogadores, por consequência de problemas cardiorrespiratórios.
O velório aconteceu nos salões do “Club Argentino de Ajedrez” em Buenos Aires.
Muitas personalidades e mestres internacionais, assim como um grande número de aficionados estiveram presentes para dar-lhe um último adeus:
Clube Argentino de Xadrez, Buenos Aires. Acima, à direita, um tabuleiro grande, sobre o qual foi montada a posição final de sua famosa partida de 1960 contra Víctor Korchnoi. Foto: http://www.cargentinodeajedrez.com.ar/
Em cinco oportunidades obteve o título do campeonato absoluto da Argentina (1942, 1944, 1947, 1961 e 1972).
Nos anos cinquenta, juntamente com Miguel Najdorf, Oscar Panno, Julio Bolbochán, Carlos Guimard, Erich Eliskases e Herman Pilnik, fez parte da equipe que ficou conhecida como a “legião dourada”, uma constelação que nunca mais foi igualada em seu nível de jogo.
Héctor Decio Rossetto representou seu país em seis olimpíadas de xadrez: Iugoslávia, Finlândia, Holanda, Bulgária, Suíça e Macedônia; conquistou três vice-campeonatos em Dubrovnik (1950), Helsinki (1952) – neste conseguiu a medalha de ouro como melhor 4º tabuleiro – e Amsterdã (1954).
A equipe olímpica de 1952 Rossetto, Picnic, Laurens, Maderna, Eliskases, Najdorf e Bolbochán A medalha de ouro 1952.
Sua vida
Nasceu em sua Baía Blanca, em 8 de setembro de 1922. Sofreu os dissabores de uma infância desamparada, depois da perda de sua mamãe, antes de completar seu primeiro ano de vida. Perambulou pelos bares e descobriu pelas noites os segredos dos jogos de cartas, dados, bilhar e xadrez; este último se converteu em seu gosto preferido.
Aprendeu praticamente sozinho este difícil jogo, só observando atentamente os jogadores de xadrez e suas jogadas, demonstrando que dispunha de um talento inato.
Com apenas 12 anos, sagrou-se campeão bahiense de xadrez
Eufórico por este precoce sucesso, atreveu-se a dar um salto.
A partir do ano de 1936, converteu-se em jogador de xadrez e mudou-se para Buenos Aires.
Conquistou o título de Campeão da Argentina aos 19 anos.
Héctor Decio Rossetto em 1941
Em 1945, viajou aos Estados Unidos para participar de um torneio Pan-americano.
Fascinado por aquele (novo) mundo, sua estada demorou-se por mais seis meses.
O mestre conheceu Hollywood e ficou impressionado.
Chegou a fazer amizade com ninguém menos do que Humphrey Bogart, com o qual compartilhou noite, tragos e xadrez:
Rossetto com Humphrey Bogart e sua esposa Lauren Bacall
A título episódico, contou-nos, ‘que Bogart foi Presidente de um Clube de Xadrez; era simpático e de nenhum modo “duro” como aparecia nos filmes’.
Também se relacionou com Marlene Dietrich, Charles Boyer, Carmen Miranda, Margarita Xirgú e Bing Crosby.
Rossetto jogando em companhia de Marlene Dietrich Rossetto jogando e Carmen Miranda, com lenço e shorts, observando
O mundo do cinema lhe entusiasmou tanto que se transformou em artista e desempenhou alguns papéis, bem secundários, em vários filmes.
No entanto, sua pátria Argentina lhe chamou, e regressou a seu querido país, voltando com a força de um titã.
Em 1950, conseguiu o título de Mestre Internacional, participou com sucesso maiúsculo nas olimpíadas dessa década e, em 1958, no Interzonal de Portoroz, descobriu o talento de Bobby Fischer. A partida terminou em empate.
“Não podia acreditar no que estava vendo frente ao tabuleiro. Esse garotinho jogava de forma fantástica e fiquei deslumbrado por seu raciocínio.
Fomos amigos. Ele conheceu minha casa e minha família”, recordou Rossetto.
Dois anos depois, em 1960, Héctor Rossetto se consagraria Grande Mestre.
Em Buenos Aires, disputou-se o Magistral do 150º Aniversário; Rossetto, além de conquistar o título de GM, permitiu-se o luxo de vencer ao russo Víctor Korchnoi, ganhador desse evento.
Korchnoi e Rossetto em 1960
Com muito gosto, oferecemos a seguir a partida:
H. Rossetto -. V. Korchnoi [D04] Buenos Aires. Argentina, 30.06.1960
1.d4 d5 2.Cf3 Cf6 3.e3 g6 4.Bd3 Bg7 5.0-0 0-0 6.Cbd2 c5 7.c3 Cfd7 8.De2 Cc6 9.h3 Te8 10.Bb5 a6 11.Ba4 b5 12.Bc2 Bb7 13.Td1 e6 14.Cf1 Dc7 15.Bd2 Tac8 16.Tac1 e5 17.dxc5 Cxc5 18.b4 Ce4 19.Be1 Cd6 20.e4 Cxe4 21.Bxe4 dxe4 22.Cg5 f5 23.a4 Cd8 24.axb5 axb5 25.Dxb5 Dc6 26.Dxc6 Bxc6 27.h4 Bf6 28.c4 h6 29.Ch3 Bxh4 30.b5 Ba8 31.Td6 Ce6 32.Ce3 Rf7 33.Ta1 Be7 34.Td7 Rf6 35.Bb4 Bxb4 36.Txa8 Cc5 37.Cd5+ Re6 38.Te7+ Txe7 39.Txc8 Cb7 40.Cxb4 Td7 41.Ca6 Td1+ 42.Rh2 Ca5 43.b6 Tb1 44.c5 Rd5 45.Cg1 Tb2 46.Ce2 Txe2 47.Cb4+ Rc4 48.c6 Tb2 49.c7 Rxb4 50.Ta8 Tc2 51.Txa5 Rxa5 52.b7 Txc7 53.b8D Tc6 54.Dxe5+ Ra6 55.Rg3 h5 56.Rf4 Rb6 57.Db8+ Rc5 58.Re5 Rc4 59.De8 Tc5+ 60.Rf4 Rd3 61.Dxg6 Re2 62.Da6+ Re1 63.Da1+ Re2 64.Db2+ Rf1 65.f3 Tc8 66.Re3 Rg1 67.fxe4 fxe4 68.g4 1-0 (Ver a partida no visor)
Posição Final
O vasto currículo enxadrístico de Rossetto exibia vitórias ante os ex-campeões mundiais Alexander Alekhine e Dr. Max Euwe, e diante de outros grandes como B. Ivkov, L. Pachmann, W. Uhlmann, O. Panno e muitos mais.
Rossetto jogando contra Najdorf Rossetto junto a três ex-campeões do mundo: Smyslov, Spasski e Petrosian
Mas mestre Héctor Rossetto teve também uma vida que superou o limite das casas do tabuleiro, como, por exemplo, sua relação com relevantes figuras da política.
O dia em que conheceu Evita Perón
Retrato de Evita Perón
“A equipe olímpica que viajou a Dubrovnik em 1950 foi recebida previamente por Eva Perón em seu escritório. Ela prometeu nos ajudar a realizar uma turnê por vários países depois da Olimpíada, caso conseguíssemos uma boa classificação. Nós cumprimos e ela também. Viajamos depois por quatro países e ganhamos todos os encontros”.
“Quando de meu regresso, voltei a reunir-me com ela e me conseguiu esta casa em que vivo com minha esposa e em que nasceram meus filhos. Mas, por favor, deixe claro que, no que se refere à casa, foi um empréstimo e que paguei até o último centavo”, pediu o mestre, com o olhar profundo que seus olhos claros irradiavam, e essa voz “pastosa” com a qual dava maior ênfase a suas palavras.
Com o Marechal Tito
“Na Iugoslávia conheci o Marechal Tito; nunca conseguirei entender porque alguém como ele fumasse com uma longa piteira de ouro e precisasse de um secretário para que lhe acendesse o cigarro”.
Sua amizade com Ernesto Che Guevara
Em 1964, estava jogando o Magistral Capablanca em Cuba: meu adversário era o mestre Silvino García. De repente, no meio da partida, ergui os olhos e o vi chegar; era o “Che”.
Imediatamente me levantei para saudar-lhe e disse:
“É um prazer conhecê-lo, Comandante. Ele me olhou fixamente e me respondeu: «Você é quem não me conhece, eu conheço muito bem o mestre Rossetto; era seu “fã” quando jogava partidas rápidas na confeitaria Rex da avenida Corrientes em Buenos Aires »".
Desde aquele dia nasceu uma amizade entre ambos, que mestre Rossetto conservou até o último dia de sua vida. Entre os tesouros que conservou existe uma caixa de madeira para guardar as peças de xadrez, com a legenda “III Magistral Capablanca” e o nome Héctor Rossetto.
Rossetto no Magistral Capablanca contra Silvino García, observado atentamente por “Che” O presente mais valioso para Rossetto
Em 1972, Rossetto ganhou seu quinto e último Campeonato Argentino.
Pouco a pouco, foi se afastando da noite e do xadrez, e, há poucas semanas, seu sonho enxadrista se truncou, faleceu rodeado de sua família com a idade de 87 anos.
Dispôs em vida quais deviam ser todos os detalhes de seu enterro.
Vale a pena lembrar que o momento mais emocionante foi quando sua filha Cecilia, atriz e cantora, entoou as estrofes de sua canção preferida:
“De las simples cosas……”
Nota:
Questionado se durante a estada de Alekhine, em 1939, durante 9 meses na América do Sul, Héctor Decio Rossetto pode jogar algumas partidas contra o grandioso ex-Campeão do Mundo, nosso amigo, Arquiteto Roberto Pagura, contesta como segue:
Para responder a pergunta, copio parte do texto (em azul) de um livrinho editado por ocasião da homenagem que prestou a Rossetto o Jockey Clube de Buenos Aires, em novembro de 2006.
"Guimard, que era o grande ídolo de Rossetto nesse momento, foi um dos que primeiro percebeu o grande talento enxadrístico do bahiense (nasceu em Bahía Blanca, em 1922). Em 1939, disputava-se em Buenos Aires a Oitava Olimpíada de Xadrez e a cidade estava cheia de grandes enxadristas. Rossetto tinha 17 anos quando entrou no "Círculo de Ajedrez" e viu o grande ex-campeão, Alexander Alekhine, jogando “blitz” com Guimard.
Jogue com o garoto, que joga bem (disse Guimard, pouco depois, levantando-se)
"Sentei-me na cadeira e dei o máximo de mim. Venceu-me por 3 a 1, com três empates. Depois, mostrei-lhe minha partida com Aguilar, que era justamente uma defesa Alekhine. Ele olhava, assentia depois de cada jogada e ouvia-o murmurar "mmm...". Cada "mmm" que eu escutava era um prazer infinito para mim" (conta-nos Rossetto).
Não há registrada nenhuma partida entre Alekhine e o jovem Rossetto.
Por Carlos A. Illardo, Buenos Aires. Interpretado e adaptado por Frank Mayer, Revisado por Salvador Aldeguer Fotos Clube Argentino de Xadrez Web Sitges-Barcelona, maio de 2009.
Publicado originalmente no site TablaDeFlandes.com.
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